O riacho
“O que enche o olho, enche o coração”
A aurora deu lugar a um dia sereno e claro. Ellora, descansada da longa viagem, sentia a necessidade de se reconectar com a natureza que tanto lhe era familiar. Com passos leves e silenciosos, deixou a casa e dirigiu-se ao riacho próximo. A água límpida e fresca corria suavemente, refletindo os raios do sol que começavam a brilhar com mais intensidade.
Ellora se aproximou da margem, suas mãos delicadas movendo-se para desatar os laços de suas vestes. Com um movimento gracioso, entrou na água, sentindo o frescor envolver seu corpo. Enquanto se banhava, seu olhar vagava pelo cenário ao redor, absorvendo cada detalhe com uma sensação de nostalgia e pertença.
De repente, vozes interromperam sua serenidade. Dois monges estavam caminhando perto do riacho, em uma discussão animada. Ellora rapidamente mergulhou mais profundamente na água, escondendo-se parcialmente atrás de uma vegetação densa.
"O que está dizendo, Lukas? Não pode ser sério!" O monge mais velho, com uma voz ríspida, parecia agitado. "Essas práticas pagãs são uma afronta à verdadeira fé!"
"Calma, irmão Eamon," respondeu o mais jovem, Lukas, com um tom mais conciliador. "Não podemos simplesmente rejeitar tudo o que não entendemos. Essas pessoas têm suas tradições, e algumas podem não ser tão diferentes das nossas crenças em essência."
Eamon bufou. "Tradições? Superstições, isso sim! Precisamos trazer a luz da verdade para este lugar."
Lukas olhou ao redor, seus olhos vagando até encontrarem os de Ellora escondida entre a vegetação. Ele a viu, mas manteve-se calmo, apenas um ligeiro sorriso indicando seu reconhecimento. Não fez menção de alarde, continuando a conversa com Eamon como se nada tivesse acontecido.
"Eu entendo sua preocupação, irmão Eamon," continuou Lukas, "mas devemos ser pacientes e compreensivos. Forçar nossas crenças não levará a nada bom. Talvez possamos aprender algo com eles."
Ellora observava atentamente, sentindo seu coração bater mais rápido. Lukas parecia diferente, mais aberto e receptivo. Ela se sentiu intrigada por ele, mas também cautelosa. A conversa entre os dois monges continuou por mais alguns minutos, até que Eamon, impaciente, decidiu que era hora de partir.
"Vamos, Lukas. Temos muito a fazer," disse Eamon, virando-se para ir embora.
"Sim, irmão Eamon. Estou logo atrás," respondeu Lukas, lançando um último olhar na direção de Ellora, como se quisesse garantir que ela estivesse bem.
Quando os monges se afastaram, Ellora emergiu da vegetação, seus pensamentos uma mistura de curiosidade e apreensão. Vestiu-se rapidamente e fez seu caminho de volta para a vila, com a imagem do jovem monge gravada em sua mente. Ao anoitecer, as sombras do crepúsculo caíam sobre a terra, e Ellora sentia uma nova inquietação em seu coração. Quem era Lukas? E por que ele parecia tão diferente dos outros homens de sua fé?
Ao retornar à vila, Ellora sabia que muitas decisões ainda precisavam ser tomadas, mas agora, havia uma nova peça no tabuleiro, um enigma a ser desvendado. Ela entrou na casa, suas vestes ainda úmidas, com a mente fervilhando de pensamentos sobre o monge de olhos gentis.
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