Decisão


"A Lua anuncia meus ciclos. Um fluir continuo de minha maré interna. Sou cheia, sou vazante. Transbordo para fora de mim. Carmim. Fecundo a terra e por ela sou fecundada."

Ellora acorda. A lua ainda está plena, cheia, bojuda. Como poderia ela permanecer no ar, se aparenta ser tão mais pesada que os pássaros que ora ficam voando, ora sua asas tremem do esforço exacerbado que é se manter em pleno ar? Está quente. Essa terras são as mais altas do reino, mas Ellora nunca vira um calor tão grande, Parecia que os deuses desejavam incendiar a terra e assim reconstruir tudo do nada. Outra tribo vinda do ventre de Danna. Ellora caminha a passos lentos. O único som que deseja ouvir, no momento, são os grilos que cantam no mato. *Há de ser fazer silêncio e permitir que durmam para que os próximos possam ter seus sonos serenos. Todo sono é sagrado*. A porta de tecido está logo ali. Um farfalha e um vulto passando rapidamente do lado de fora agitam Ellora. Eça pensa em gritar mas logo a simples lembrança de seus colegas dormindo não lhe permite fazer isso. Seu cajado quebrado não deixa que se defenda. Apreensiva, sai do salão da gran sacerdotisa. Só então escuta um piado característico e familiar: "uuuuh uuuuuh". Imediatamente um sorriso se abre em seu rosto: Coruja, corujinha. Está passando pelas mudanças que a gravidez trás ao corpo sozinha. Sua primeira gravidez.  O corpo dilatando e inchando, suas formas mudando em virtude do ser que começa a pulsar e se movimentar, alimenta-se dela própria. Uma dependência que caminha para uma possível autonomia futura, que nesse momento é utópica. Está pálida. Fraca. Mas o impulso te diz *segue, você precisa continuar. Veja suas certezas.* Antes que pudesse pensar no que poderia ser feito, a coruja segue voando e piando, como se quisesse que a seguisse, coisa que foi feita sem pestanejar.


As corujas voam altas, observando tudo e todos com seus olhos graúdos. Ela voa sublime e sábia por entre as árvores, folhas, vegetações. Ellora corre, ainda fraca. Passa tomando o máximo de cuidado. Sua barriga já estava avantajada. A criança já tomava proporções. Já lhe perguntaram se a deusa revelara qual o sexo da criança. Nunca se importara com isso. Deixou isso ao encargo da deusa. Logo nota que o caminho fica ingrime. Respira arfando um pouco. Voltar ou não voltar. Olha para o topo da árvore. A coruja estava lá, firme a observando. Como se aguardasse pois sabia que aquele era o caminho certo. Ergue a coluna numa postura digna de seu cargo e sobe o caminho. Pé ante pé. Cada passo dado é pensando nas certezas que deveria ter para prosseguir com isso. Firme, forte nessa batalha. A coruja voa mais uma vez, mostrando o caminho. Logo o esforço é recompensado. Está no topo da cachoeira. De lá, pode olhar para tudoo. Olhar para o mundo. Sente-se plena, recompensada. Não controla suas emoções e chora. Recorda-se da Fala da druida que não recorda o nome. Do olhar de Morrighan, das palavras e ausência de Athair. O vento passa. E um fresco que sai da neblina úmida da cachoeira vem como um acalanto da deusa. Como se a ela dissesse "Tenha fé minha filha. Esse é meu desejo. Toda dor será recompensada." A lua não está mais no céu. Já rompe a aurora e as cores rosas e laranja tingem o que era escuro, abrindo caminhos para o azul celeste. O resto de incertezas que existem em sua alma precisam sair. precisam ir embora. Ainda é necessário voltar à vila. Seus afazeres de Gran sacerdotisa e chefe não podem esperar.  Se apoia na rocha e desce lentamente, acompanhando com os passos o Sol preguiçoso que teima em não querer levantar do horizonte.



A floresta é sua casa. Talvez aonde se sinta mais em casa que na própria vila, ou no Salão Sacerdotal. É onde é possível estar longe das amarras que o cargo lhe impõe. Sempre fora uma criança precoce, mas o peso de tudo parece que ainda lhe pesa nos ombros: Gran Sacerdotisa, chefe dos pictos e mãe. Vinte anos. E o que vivera para além dos limites da ilha sagrada. Venta. O vento lhe trás os cheiro das maçãs. As doces maçãs. Fruta do desvendar os olhos, do auto conhecimento. Fruta que toda iniciada deve provar com a consciência de ver além do que os outros vêem. Sua boca saliva, e esta escorre um pouco pela boca. Não é apenas a doçura da maçã, mas também da saudade. Mas se as maçãs vieram até ela até ali. Se o vento lhe trouxe essa lembrança, e o afago da deusa, Ellora sabia o que tinha de fazer. Decidida, porém calma, segue para a vila. As pessoas estavam finalizando sua saudação ao Sol. Ellora caminha até a olaria e mexe no barro. Lembra-se da música que sempre cantarolava quando queria chamar o monge. Quando sentia que ele estava por perto. Não tiveram muito tempo juntos, nem a oportunidade de saber muito sobre os caminhos da religião do deus morto.

"Todo o sangue pesa
nas mãos de quem o tirou
O sangue é vida
Da deusa e e amor

Vos faço esse convite
de comigo aqui estar
nas fogueiras de beltane
Nosso sangue tornar um

O athame e o cálice
presentificar
encarnado no gozo
da deusa e do gamo

É vida pulsando
É vida pulsando, meu filho
Vontade da deusa
É o mundo seguindo"



Ellora molda o barro, que vai ganhando lentamente a forma que vem à sua mente. Barro da fertilidade. Barro que é vida. Ellora decide moldar vida. 



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