A Viagem - part. 2

"O bom da chuva é que parece que não tem fim. Os pingos caem em tempos ritmados e distancias desiguais. Taranis fecundando Eostre, possibilitando o renascimento infinito da vida. Eu me molho na chuva e olho o horizonte, esperando encontrar o Arco-íris."


Ellora descansava sobre a árvore, completando o primeiro dia solar que necessitava para chegar nas terras do reino onde reside a baronesa Elvia. A floresta que protege os celtas é longa se cheia de perigos, principalmente para aqueles que não conhecem os caminhos escondidos entre as pedras e folhagens da região. A tarefa se mostrou demasiadamente simples para Ellora, que aproveitava para recuperar energia e seguir em frente. Existia ali também um certo alívio de poder dormir no mato, sentir o cheiro da vegetação e outras texturas que extrapolavam as de seu cotidiano. E os afazeres e responsabilidades inatos ao cargo que ocupa em seu clã parecem permanecer no salão sacerdotal, ou ainda nos braços de Morrighan. Ellora sonhava. Possivelmente o sonho que não era uma visão, mas um desejo. Os cristãos expulsos e derrotados, os prisioneiros prontos para serem sacrificados em nome de seus deuses, principalmente Taranis. O filho criado sob a égide de seus costumes assim como o monge cristão convertido e aceitando sua cultura para poder ingressar em sua comunidade e fazer parte de modo pleno e perene de sua vida.  

Um pingo, dois pingos. A sensação molhada estralando em seu corpo e o barulho já conhecido faz a sacerdotisa acorda. O mundo chove. Chuva de Ostara, chuva de renovação. A cesta com a maçã e a camomila fica esquecida um pouco. Ellora se levanta e para sentir a chuva em seu corpo. É como se não acreditasse que voltara a chover. *Não posso me arriscar a adoecer. Logo Beltane chegara e precisarei de todas as forças para o que está para acontecer. Contudo, meu filho precisa de mim e eu preciso dele*  Ela caminha um pouco, parando próxima a um paredão que estava ao lado da árvore onde descansava. As mãos se abrem para receber a benção refrescante, ainda que a sacerdotisa esteja carregada de roupas.


A sacerdotisa retorna para pegar  cesto que deixara abrigado na arvore, protegido da chuva que começava aos poucos a ficar mais intensa. Contudo, decidira não esperar a chuva passar. Correria risco de ficar doente sim, mas resgataria a criança o mais rápido possível. Talvez a chuva fosse um sinal dos deuses para que ela não prosseguisse nesse caminho. Para que regressasse, matasse o monge em honra aos ancestrais e permitisse que a criança da promessa seguisse seus caminhos livre de sua orientação. Mas não é esse o caminho que seu coração pede. Ellora caminha pensando muito. Os passos são dados de modo distraído. Quando se dá conta, ela está de volta ao começo. O mesmo lugar onde o monge a seguira, onde houve o embate. O mesmo lugar onde o filho nascera. O mesmo lugar onde a velha, mais uma vez, faz a previsão. Previsão essa de mau-agouro. *Como poderia uma criança antever tanto mal? Tudo é irremediável se o destino das pessoas já foi traçado anteriormente? O quão grande é a possibilidade humana quanto a imutabilidade das coisas que acreditamos? Será que os deuses são tão imutáveis assim?* São pensamentos que correm a cabeça da sacerdotisa. A chuva alivia um pouco mostrando-se, dessa vez, ser agradável ao toque. Ellora, resolve sentir a chuva com o corpo inteiro. Ela coloca a cesta mais uma vez no chão e se despe. Agacha no local onde lembra que o parto aconteceu. Sua mão garimpa a terra tentando buscar qualquer vestígio da existência desse momento. *Memória. Memória é como o nó de uma árvore. às vezes um é maior que o outro. Se misturam, se confundem, mudam formato a depender de onde vemos. Mas ele está ali. Inegavelmente o nó está ali.*


Insatisfeita com o resultado de sua busca, Ellora resolve escalar a cachoeira próxima. O cesto permanece ali, aonde está. Não parece existirem pessoas ao redor. Todos devem estar muito cansados depois de um dia de sabbat. E o que os cristãos faziam pouco importava, com exceção de Luca. Como estaria seu coração naquele momento? O piado de Arianrhod naquele momento enche o coração de Ellora de força. Escalar a cachoeira é mais necessário que nunca. As rochas estão molhadas e a subida é difícil. Mas a vista do reino compensaria qualquer pessoa pelo esforço passado. A sacerdotisa respira, e agradece não existirem trovões ou raios rasgando o céu. Tanaris estava calmo.  Intuitivamente a sacerdotisa pensa em sua irmã. E como a relação com ela estava estremecida pelas perspectivas diferentes de ver, sentir e entender o mundo. Aproveitando o lugar e a possibilidade dos corvos de Morrighan estarem por perto, Ellora abre os braços e com toda a verdade que habita seu coração grita aos plenos pulmões uma oração para a deusa da guerra:

Sobre montes e sobre prados 
Veja o corvo voar, sinto a sua sombra 
Sobre bosques e sobre montanhas 
Procurando por uma guerra 

Suas asas abraçam cada luta e batalha 
Onde espadas se confrontam e carros batem 
Buscando a aquele em cujo tempo 
Chegou a ter a lâmina 

Morrigan antiga Deusa da guerra 
Eu vejo seu rosto, eu não vou chorar mais 
Morrigan antiga Deusa da guerra 
Venha me levantar em suas asas 

Morrigan antiga Deusa da guerra
Eu ouço sua voz, eu não respiro mais 
Morrigan antiga Deusa da guerra 
Venha libertar meu espírito 

Mate por Morrigan 
Mutile por Morrigan 
Lute por Morrigan 
Destruir por Morrigan 
Morrer por Morrigan 
Morrigan antiga Deusa da guerra.


Embora a oração não seja maternal, a sacerdotisa entende que não existe vida sem Morrighan. Se seu filho é portador de uma maldição, há de si negociar com a divindade que trás a morte para salvar a vida de seu filho e daqueles que cuidarão do corpo e da alma dessa criança. Contudo Morrighan não seria suficiente. Arianrhod pousa no braço aberto de Ellora, que contempla a coruja de modo terno. As palavras saem como que em transe, embora a sacerdotisa esteja consciente de tudo que acontece ali:
"O Arianrhod
donzela, mãe e anciã,
que nos destes nossos nomes
Que nos destes nossas armas
Para que pudéssemos ter uma nova vida.
Para ti viemos
E para teus braços retornaremos
Deusa resplandescente
Filha da grande Deusa
Nós convidamos-te a descer
de teu palácio de estrelas e florestas selvagens
Junta-te a nós e inunde-nos com o teu poder
Abençoa-nos Arianrhod!
E ilumina nossos caminhos
Através da luz da lua cheia.
Dê-nos discernimento para escolher os caminhos
e que apenas retorne contigo ao seu palácio estelar
aqueles que devem permanecer aí
para além do mundo das brumas.
Abençoa-nos Grande Mãe Frutosa
Pois somos teus filhos mais amorosos.

Assim que Ellora termina a oração, a coruja pia de modo agressivo e marca o braço da sacerdotisa com força. As unhas arranham a pele que sangra um pouco em alguns lugares. Ellora entende o que significa. Há desígnios que estão além da vontade da Gran Sacerdotisa. Que não cabe a ela decidir o que é certo ou errado. Mas que Arianrhod nao a impediria de seguir seu livre arbítrio. Ellora lava a ferida, que arde um pouco. Em seguida desce lentamente a cachoeira e encontra sua o cesto de maçãs e camomila com suas roupas no mesmo lugar onde havia deixado. Veste-se com certa presteza e adianta o passo.


Ellora caminha o mais ágil que pode. Contudo a chuva não quer cessar A água molha a roupa de Ellora, que já está colada no corpo. O seio pesa. A sacerdotisa olha para trás, já havia feito um bom caminho e agora faltava pouco para chegar nas terras da baronesa. As Maçãs vermelhas contrastam com o ambiente esverdeado e cheio de limo que existe por causa do derretimento da neve e da umidade que retorna a essas terras. Ellora funga. Está tomando chuva há um bom tempo e existe a grande possibilidade que fique doente. O rio corre atrás dela e é possível, entre o som da chuva, escutar a queda d'água atrás dela. Logo o segundo dia de viagem se encerraria. Ellora está parada na entrada da floresta onde se escondem as terras férteis do reino. Um lampejo, uma sensação ruim. Ellora deixa a cesta com maçãs caírem no chão. Suas mãos vão até a cabeça sem acreditar que teria a visão naquele momento.



*Um corpo de mulher que baila. Vermelho. Tudo muito vermelho. E o fogo queimando a carne, mas a pessoa estava bem, Estava viva. O cabelo ruivo bailava com o vento. Ellora tenta reconhecer quem seria aquela pessoa a baila nas fogueiras de Beltane. Só então entende e ficar preocupada com Ellen. *E Ellora começa a pensar na prevenção de qualquer situação indesejada. Mas ainda é preciso saber quem é a mulher de cabelo de fogo.*  A visão se perde. Ellora se agacha e cata as açãs, colocando-as novamente no cesto. Ellora caminha pé ante. Está um pouco abatida mas segue cumprindo com o que prometeu. Logo os passos param. Está na entrada principal das terras férteis do reino.


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