A Viagem

“A poesia é uma consequência da vida, um epifenômeno dela. É o que sobrou da paixão, é o que sobrou da orgia.”

Era tarde. O festival de Ostara ainda seguia. No entanto Ellora seguia pensando na promessa que fizera ao monge. Sua palavra deveria ser lei. E esta era uma missão que lhe tinha valor sentimental caro. Ellora precisava resgatar seu rebento, cujo rosto já se esquecera na certeza de que a criança crescera. *Será que se recordará de mim, do meu cheiro. Meu corpo ainda anseia pelo toque suave da criança buscando o aconchego materno.* pensa a sacerdotisa enquanto caminha para a fonte termal. Era preciso se lavar, se preparar para encontrar a criança. No caminho, o leite destinado a alimentar o pequeno ser vaza de seu corpo mais uma vez. O mesmo leite que insiste em lembrá-la que tem deveres como mãe, tal qual a deusa tem para com suas filhas. Ellora colhe no caminho um pouco de arruda, camomila e aspérula. A lua cheia ilumina bem as plantas que aparecem no caminho. Ao chegar nas fontes termais, a sacerdotisa se despe, tirando os adornos de todo corpo. a saia branca. As águas parecem mornas. Ellora coloca na água a arruda e a aspérula, esperando o vapor  liberar o perfume das ervas. Só então ela se permite entrar na fonte. Sabe que o caminho será difícil. É preciso proteção. E pedir permissão da deusa. Enquanto se banha, murmuras palavras da oração sentindo a mão de Eostre acariciando seu corpo e lhe protegendo:


"Grande Mãe

Deusa da alvorada, da luz crescente

Irradia por onde passa

Amor e alegria na gente.
Deusa do renascimento, da vegetação
Banha-se no orvalho
Traz pureza, beleza e emoção.
Deusa da juventude
Desperta em mim toda magia
E me traga tua plenitude
Em todas horas do meu dia.
Que se mova pela minha alma
Tão inquieta e milenar
Que em cada lua cheia
O fascínio e o brilho
Venha comigo ficar
Deusa dos ovos decorados
Ovos de fertilidade e de vida
Que as flores da tua primavera
Floresçam também na minha vida.
Então abro meu coração e meu espírito
Com toda harmonia e força de vida
Com os ventos que sopram na minha direção."




À medida que a água morna cai em seu corpo, a tinta azul utilizada para a pintura cerimonial vai desmanchando, deixando um rastro pelo caminho que percorre. Ellora sente o alívio no seu corpo e a certeza de que sua empreitada logrará êxito. Um piado chama atenção da sacerdotisa, mas ela não se vira para verificar. Arianrhod, sua fiel coruja e animal sagrado está sempre por perto. "Você sabe para onde irei. Tem certeza que partirá nessa jornada? Você sabe que os cristão não são gentis comigo, muito menos com você." A coruja bate as asas e se sacode, como se confirmasse mas, ainda assim, quisesse acompanhar sua dona. Ellora sorri, satisfeita com a reação da amiga. Ela se levanta. A água que escorre de seu corpo negro está límpida. Não há resquício da tinta ou das folhas que, anteriormente, cobriam seu corpo. Um novo estado, mas com Ostara dentro de si. Ellora pega seus pertences e a camomila que não foi utilizada e caminha para o salão sacerdotal. Está nua, no entanto as pessoas ainda estão no festival de Ostara. Alguns casais já se recolheram para sua moradas e estão tendo suas relações de fertilidade. Ellora lembra do monge. *Como foi o regresso dele? Como anda a missão? Como sua alma está no momento?* Pensa enquanto adentra seu recinto. Cuidadosamente coloca seus pertences em um canto. A camomila é posta em uma cesta alta que deverá seguir viagem com ela. Suas roupas não são casuais. Sente-se como se fosse para uma guerra. Não sabe se é p sentimento maternal que nunca experimentara antes, ou o pressentimento de que algo ruim acontecerá, mas Ellora se veste para o embate. Arianrhod, que acompaanhou sua caminhada até o o salão sacerdotal, está pousada no telhado de palha de seus aposentos. Um cuidado espiritual que lhe traz, aos seus olhos, a benção de Eostre e da grande mãe.


Ellora recolhe a cesta com camomila, alguns peixes assados e maçãs. A viagem será de quatro dias: dois para ir e dois para voltar. Além do tempo que negociará com a baronesa. Isso se conseguir encontrá-la em suas terras. Ellora sabe que, apesar de não parecer, carregar um título significa ter responsabilidades. Ainda mais uma mulher que não é casada em terras cristãs onde todas somos portadoras do pecado original. A presença de Pandora seria bem vinda, mas a mulher continua deitada sob o efeito do chá que tomará para o ritual. Talvez ela não fosse tão forte quanto pensava, acredita Ellora. A sacerdotisa passa pela macieira. Parece que essa não se cansa de dar maçãs. Essas ainda estão jovens. Mas as suas flores pungem a fertilidade latente desses tempos. Em verdade, tudo ao seu redor lhe faz recordar de seu menino. A criança da promessa, criada em terras distantes. Já deveria estar com dois ou três meses de nascida. Ellora olha para o horizonte com o desejo de ter o menino nos braços. Os seios incomodam e o corset não facilita o trabalho. Gostaria de tirá-lo, mas precisa de mais pano para esconder a macha de leite, caso ele resolva transbordar para fora de seu corpo. A mata está chamando a sacerdotisa. A natureza está chamando. Suas entranhas lhe causam calafrios perante a expectativa do encontro. Sem mais delongas, ela se prepara para abrir os caminhos pelas brumas e seguir em direção à floresta.

Star of Honor  v1.5: ===ROLAGEM DE DADOS ATRIBUTO INTELIGENCIA===
Star of Honor  v1.5: Ellora lançou os dados e tirou 6 + 7 = 13


A sacerdotisa levanta os braços na direção da abobada celeste e respira fundo. Só quando consegue sentir que está conectada com a grande mãe e as brumas que cobrem a vila ela desce os braços lentamente, como se estivesse abrindo a cortina que cobre e protege o mundo. As brumas obedecem às suas ordens, revelando a passagem que a mulher deve seguir. Ellora sabe que aquela abertura revelaria que uma sacerdotisa estava saindo da vila e que logo dariam falta dela. Contudo, Morrighan estaria ali para suprir sua ausência no momento. Ainda assim, precisava retornar logo para organizar o Beltane. Ainda precisava ver que seria a Donzela caçadora que se deitara com o deus que matará o Gamo Rei. Não há grandes dificuldades em caminhar pela floresta. Acostumada a caminhar nos arredores de sua vila. As Brumas já tomaram o seu devido lugar e esconde a morada dos pictos. Nas suas costas,a imensidão leitosa e branca. na sua frente, O mar formado pelo verde que brota do manto da grande mãe. Ainda que conheça os caminhos, Ellora anda com cuidado. É lua cheia. Os animais noturnos caçam. E ela cheira a carne, a sangue e a leite. Logo surge a necessidade de ordenhar seu peito. Descuidadamente, a sacerdotisa se abaixa em uma moita e, retirando o seio para fora do vestido, começa a pressioná-lo a fim de que este coloque o leite para fora e traga alívio para suas mamas. Só quando termina de ordenhar o segundo seio é que ela percebe estar próxima de dois javalis, conhecidos animais selvagens e perigosos que já mataram muitos homens, sejam estes celtas ou não. Um frio corre a espinha da sacerdotisa que só está com camomilas e maçãs. Arianrhod que se comprometera a viajar com ela pia do alto de uma árvore, lembrando de quem era. Ellora não precisa de armas para viajar. É a Gran Sacerdotisa, filha e voz da deusa na terra.

Star of Honor  v1.5: ===ROLAGEM DE DADOS ATRIBUTO CARISMA===
Star of Honor  v1.5: Ellora lançou os dados e tirou 19 + 7 = 26


Ellora usa sua presença nos javalis, não para assustá-los ou intimida-los. Mas para que eles saibam que ela não é uma ameaça. Quando se trata de animais, ainda mais os que estão ao redor de sua casa, é importante que eles não fujam. São nossa caça e, também, nossos protetores.  Precisamos deles por perto. Ellora caminha por perto dos javalis, que soltam alguns grunhidos mas não avançam, quase que ignorando a presença da mulher humana perto deles. Uma chuva cai sobre a floresta. Sua roupa se molha. O chão começa a ficar escorregadio. A sacerdotisa olha para o alto, parece que será uma chuva passageira. Por sorte, a vegetação é densa e boa parte da água é retida pelas árvores. Ellora encontra um abrigo de pedra e resolve permanecer ali por um tempo enquanto aguarda a chuva passar, coisa que não demora muito a acontecer. Agora, as folhas seguram parte da água que brilham como esferas de prata sob a luz da grande mãe. São delicadas jóias que se desfazem ao toque gentil da mulher. A sensação de pisar no molhado descalça agrada muito a sacerdotisa, apesar das áreas mais rochosas da floresta estarem com o chão escorregadio. Ellora evita passar por essas regiões, mesmo que isso signifique um pouco mais de tempo de caminhada. Logo a floresta se torna menos densa. as árvores estão mais espaçadas e a luz consegue penetrar por entre as folhas e chegar no solo. Ellora vê a trilha humana que leva aos locais mais distantes: a cidade de Avalon e as terras do reino onde está o seu rebento. à sua direita, um monte imponente surge por entre as árvores. Ellora sente-se curiosa em averiguar esse lado do reino que a tanto tempo não visita. Ellora lembra-se do corvo com o osso que recebera. O presságio de guerra. Cansada por atravessar a floresta, a mulher se senta sob uma árvore na encruzilhada dos caminhos e descansa um pouco, para poder continuar sua jornada.


continua...




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