O Corvo e o Osso
"Não podemos esquecer que somos pictos. O povo encantado, o povo das fadas. Aqueles que descendem dos deuses."
Após deixar o monge devidamente acomodado, Ellora segue para um movimento que é muito caro - cuidar do corpo de seu pai. Desde que ele fora encontrado e transportado para seu local sagrado, os cuidados dele ficou ao encargo de algumas sacerdotisas e druidas, enquanto Ellora e Morrighan precisam cuidar de estabilidade política, militar e religiosa de todo o vilarejo. A sacerdotisa pega um bom punhado de valeriana para lavar o corpo de Athair. *Tenho que auxilia-lo como posso. Só assim ele poderá regressar em segurança para além da terra da verdade. Seu corpo precisa de sua alma novamente aqui. Nós precisamos dele aqui. Mas ainda não é suficiente.* Ellora segue para fora para procurar erva-de-são-joão. O dia está excepcionalmente claro. O sol brilha quase que ofuscando todo campo de visão da sacerdotisa. Ela aperta os olhos e caminha até o jardim do lado externo.
Ellora senta no chão e cuidadosamente colhe a planta. Fica aliviada de ter plantado algumas ervas. Mas sabe que a maior parte das plantas devem ser colhidas na floresta, em meio a um ritual que respeite os deuses. No entanto, o que conta aqui, além do respeito às divindades, é o bem estar de seu pai. De repente, uma sombra se movimenta pelo céu. Ela faz alguns círculos sobre o lugar onde a sacerdotisa está sentada. Aquele movimento estranho chama a atenção da sacerdotisa que pára de colher a erva e olha para céu.
"Um corvo". - Ellora murmura. Sua primeira impressão é de ser um dos corvos de sua irmã, Morrighan. Contudo, uma sensação lhe percorre a espinha e arrepia seu corpo. *Não, não pertence a Morrighan." Ellora se levanta e o corvo segue para a floresta. Com um rosto aflito, sem querer essa visita, Ellora caminha na direção de onde o corvo está, a clareira sagrada. Este não entra no Nemeton, mas posa em sua estrada. O corvo solta um osso e olha nos olhos da sacerdotisa. Ellora se aproxima e pega o resto animal, que está incrivelmente limpo. Não parece que o corvo comeu esses restos. Estão limpos. Não há sobras. O osso começa a esquentar na mão da sacerdotisa que, para não soltá-lo, o envolve em seu tecido e caminha para o Nemeton. Ellora coloca o osso na base do oráculo e pede à deusa sabedoria para entender os sinais.
Ellora sente como se o mundo parasse e um trovão é escutado apesar do céu está limpo. Ela se levanta e o poço do oráculo da lua começa a emitir uma luz azulada. Ellora não crê no que está acontecendo. Nunca o poço o oráculo havia se comportado dessa maneira. Há ali uma magia antiga e poderosa que ela não havia sentido em lugar algum. Sua cara é de espanto e ela segue perplexa*
Mais um trovão. O corvo começa a se remexer fazendo um barulho estridente. Tudo ali parece fora do comum. Ellora se sente atraída pela luz emanada do poço. Dá passos lentos, como se cada centímetro mais perto significasse que o posso revelaria um pouco mais do que desejava mostrar. Ellora se abaixa, pega o osso e, intuitivamente, coloca-o dentro do poço.
A sacerdotisa si vê. Ela está ali, na floresta celta, próxima ao lago Arianrhod. A sacerdotisa caminha para a beirada do planalto, aonde pode ver as águas dos rios que afluem para o mar. Lá, uma nuvem vermelha se aproxima. Uma nuvem vermelha e colossal. Ela chove e sua chuva, vermelha, seca as árvores e pinta chuva de carmim. Um cheiro de sangue e cadáver do local. A terra treme. Ellora escorrega e cai na direção do mar de sangue.
A sacerdotisa grita. As mulheres que cuidavam do corpo de Athair chegam para ver o que está acontecendo. O rosto de Ellora é pálido. Elas conseguem acorda-la do transe. Sua respiração é ofegante e demora um pouco para que ela separe a visão do mundo real, tamanha foi a intensidade do que presenciara. Ela não tem condições de cuidar de Athair hoje. Entrega a valeriana e a erva-de-são-joão para as mulheres e as instrui. Elas se olham, porém não questionam suas ordens. Logo que se vê sozinha, ela se apoia no oráculo, senta em sua bora e murmura, olhando para o poço que possibilitou a visão: "Quem irá chegar?"
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